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Entrevista: Celso Pixinga E-mail
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Escrito por Ney Neto   
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Uma entrevista franca e emocionante, com performances matadoras do grande mestre do contrabaixo.

 

+ Videos e Fotos  

 

 

 

 


 

  

“Eram assim: ela e ele. Eram ela pra ele e ele pra ela, e eram os dois apenas um.”

Com essas palavras da poetisa Nalú Finon tento traduzir a relação de Celso Pixinga com a música. É impossível separar um do outro, pois os dois se completam totalmente. Da mesma forma, é impossível falar, escrever ou articular qualquer coisa a respeito de contrabaixo sem, direta ou indiretamente, ligar o assunto a Celso Pixinga.

Por isso, nós do Baixista.com.br fomos atrás do grande mestre do contrabaixo nacional, que em um ato de simpatia e humildade, não apenas nos recebeu em sua casa para essa entrevista, mas se tornou imediatamente um parceiro amigo do projeto Baixista.com.br. E literalmente, vestiu a camisa do site.

São gestos como este, além de sua grande técnica e musicalidade, do empenho em promover o contrabaixo no país e da humildade e honestidade como educador, que fazem de Celso Pixinga uma unanimidade.

Celso Cláudio Cascarelli, filho do Sr. Bernardo (o Xiva do Cavaquinho) e de D. Lazara, ajudou a escrever a história do instrumento em nosso país. Acompanhe na entrevista abaixo um pouco da trajetória desse grande instrumentista, e acima de tudo, desse grande ser humano.

 

  Entrevista Parte 1

 

Entrevista Parte 2 

 

Entrevista Parte 3 

 

Improviso de Celso Pixinga 

 

Entrevista em Texto com Celso Pixinga

Ney Neto: Conta pra gente um pouquinho da sua história... Como você se tornou o Pixinga que todos nós baixistas conhecemos e admiramos?

Pixinga: O processo foi o seguinte:
Eu era guitarrista e tocava rock n’ roll, e muito mau por sinal. O meu pai, no final dos anos 70 estava desesperado porque tinha um filho cabeludo em casa que não produzia nada. Eu tinha largado a faculdade, cheguei a fazer um ano de engenharia no Mackenzie e desisti. Eu queria mesmo era ser músico.

Então meu pai, desesperado com a minha situação, me levou até o Eduardo Araújo e a Silvinha da Jovem Guarda. Na época eles tinham um estúdio aqui na cidade e tentaram me ajudar.

O Eduardo me deu um baixo Fender Precision ‘62 e disse: “vai estudar!”

Eu, no entanto, fiquei assustado porque era guitarrista, mas mesmo assim levei o baixo para casa e estudei durante uma semana. Voltei ao estúdio e o Eduardo disse: “toca aí, quero ver!”

Toquei e na mesma hora ele me disse: “volte e estude mais um mês” (risos). Fui para casa e comecei a estudar e pesquisar sobre o Stanley Clarke, Jaco Pastorius e depois voltei a falar com o Eduardo Araújo e toquei novamente pra ele ver como estava.



Toquei de palheta, um estilo meio Rock a' Billy. Ele adorou e me contratou para sua banda, o que me deixou muito surpreso. Esta foi minha primeira experiência com a música. O Eduardo me deu um disco dele e pedi para eu tirar as músicas, eu nem sei como me virei. Naquela época na banda dele tinha o Manito, o Lanny Gordin na guitarra, o Dado na percussão e o Paulinho dos Santos na bateria, um pessoal super legal. E assim começou a minha carreira, fiz alguns shows que foram uma catástrofe, sempre acontecia uma trave, mas foi desse jeito que gostei do contrabaixo e fiz a turnê com o Eduardo Araújo por um ano e depois parei.

Fui aprendendo mais e quando eu percebi que esta era minha saída eu conversei com meu pai e pedi mais um ano para estudar e aperfeiçoar o contrabaixo e ele aceitou (meu pai era músico). Foi assim que comecei estudar 18 horas por dia, não saía do quarto e nem tirava o pijama, meu baixo ficava montado e fui estudando bastante com um baixo Fretless Giannini. Na década de 80 eu estava com uma técnica legal e conheci um bar chamado Pinicilina, onde tocava música instrumental. Nesse bar tocava o Nico Assumpção, Arismar, Sizão, Rodolfo Stroeter. Imagina só, quando cheguei ao Pinicilina e vi o Nico Assumpção tocando eu pensei “o que é isso?”. O Arismar era gênio, Silvinho Mazuca! Fiquei alucinado vendo estes caras tocando e então pedi umas aulas. Todos diziam: “vai tocando que você chega lá!”

Uma pessoa que me ajudou foi o Sizão, ele me deu um captador e eu montei um baixo. O Gabriel Balis, aqui de São Paulo me ensinou a ler partitura e o restante foi sozinho.

No meio da década de 80 eu já estava gravando com Cesar Camargo Mariano, tocando com Nelson Aires, estava na banda do Jessé. Em 2002 entrei na Zona Sul que era eu, Rubinho, Faísca, Álvaro Gonçalves, Carlos Bala e Bruno Cardoso no teclado. Aí eu corri atrás... Sempre correndo atrás.


NN: Nessa época não tinha tanto método de estudo, como internet por exemplo. A escola era voltada ou para MPB ou erudita, se você curtia rock n’ roll ou Jazz como fazia para aprender?

Pixinga: Pra conseguir informação naquela época só se algum amigo seu viajasse para fora, para o primeiro mundo. Além disso, eram discos de vinil, hoje graças a Deus está tudo muito evoluído.




NN: Você acompanhou muitos artistas internacionais, percebemos no seu currículo que você tocou com o pianista cubano Gonçalo Rubalcaba, certo?

Pixinga: Sim fiz cinco shows com ele, também toquei com Dave Weckl, batera da Eletrik Band do Chick Corea, toquei com a Taj Ma-Hal.


NN: E como foi essa experiência de tocar com esses “feras” internacionais?

Pixinga: Foi muito legal, o Gonçalo (Rubalcaba) foi o cara mais humilde com quem já trabalhei, uma grande aula de humildade e o cara mais fera que já vi tocar na vida, um extraordinário músico, uma sumidade. Tanto que o Chick Corea e o Hancock (Herbie) já o declaravam naquela época como o substituto natural, que não tinha pra mais ninguém, e não tem mesmo.


NN: Você que teve esta experiência internacional com estes caras da pesada, acha que o instrumentista brasileiro ainda deve para o instrumentista norte-americano, para o “gringo” como a gente chama aqui? Como você vê esta diferença?

Pixinga: Temos que dizer sempre o que realmente aconteceu, quem colocou o baixista brasileiro para estudar e gravar CD foi o Nico (Assumpção), ele foi o primeiro a gravar um vinil solo e foi o empurrão para que outros começassem a correr atrás. Naquela época (anos 80) tinha no Rio de Janeiro o Jamil Jones, o falecido Luizão Maia, Fernando Souza, o Arthur (Maia) começando, Paulo Gomes no acústico, Adriano Giffoni. Assim foi dado o start, como vocês agora estão com este projeto Baixita.com.br, dando uma força para o crescimento do instrumento no Brasil. O Nico começou e isto precisa ser dito.


NN: Assim como você começou o Festival de Baixo pelo Brasil...

Pixinga: Eu e Nilton Wood! Começamos o Festival Cover Baixo. Essa foi uma época de aprendizado, de muita luta e de pouca informação chegando de fora. A partir da década de 90 as coisas mudaram e hoje o baixista brasileiro não deve nada aos demais, está cheio de gente muito boa que arrasa. Concluindo, foram os caras (americanos) que inventaram essa onda. Todo respeito a eles, mas não devemos mais nada. Esta nova geração Deus me livre, não deve mais nada pros caras.


NN: Em 96 eu assisti um show no Projeto Madalena Jazz and Blues que foi sensacional, o Wake Up e você viajou com aquela gig para tocar no Blue Note de Nova York, como foi essa experiência?

Pixinga: Fui o primeiro baixista a lançar um projeto no Blue Note de Nova York com banda brasileira instrumental.




NN: Como foi fazer esse gig?

Pixinga: Foi maravilhoso, sensacional. O Blue Note é o templo do jazz, só de você estar tocando naquele lugar com todo aquele ambiente você já fica meio amortecido. E ainda tinha no camarim uma estrela enorme com meu nome, o que me deixou muito assustado, até falei pra minha esposa: “o que é isso? Vamos embora... a coisa aqui é da pesada (risos).


NN: A Rita (Kfouri, esposa de Celso Pixinga e cantora) te acompanhava?

Pixinga: Sim era a cantora da banda. Assim aconteceram dois shows maravilhosos. Quando eles anunciam é fantástico: “From Brazil...” (risos). Pensei: é agora! Viajamos com o trabalho do Wake Up e tocamos poucas coisas que não fossem os sambas do disco, valorizando os ritmos nacionais e com certeza foi uma das melhores coisas que fiz. No final do show meu empresário chegou ao camarim e disse que algumas pessoas que querem comprar o disco e queriam uma assinatura. Eu falei: Claro! Eu sabia que o show tinha sido legal, porque nós músicos sempre sentimos o feedback da platéia, mas com certeza eu não imaginava quem eram aquelas pessoas (risos). Era o Randy Brecker, Vernon Willis, Victor Balley. E esses caras me mostraram como são profissionais lá fora, como existe respeito. No dia seguinte o Randy Brecker levou a minha banda inteira para conhecer tudo no Village, saiu com a gente para mostrar a Nova York Música e pudemos perceber o quanto ele era querido e admirado por lá.. Esta experiência foi incrível e me deixou realizado.


NN: Você tem essa realização profissional como baixista, e sabemos que não é um cenário muito fácil aqui no Brasil. Qual a sua dica para a nova safra de baixistas?

Pixinga: Do jeito que esta hoje o universo do baixo, da música, quem não estudar de nove a dez horas por dia já era.




NN: Esta é a mesma dica para quem já toca e quer dar um plus?

Pixinga: Olha... Eu estou aqui todo ferrado, com tendinite, nem posso levantar o braço porque não tenho mais meus 25 anos, mas com certeza quem não estudar está ferrado, é preciso um bom professor e não um “conserva-otário”, procurar realmente uma pessoa que te ensine e passe o caminho das pedras. Legal mesmo é quando o professor abre o jogo, a honestidade é muito legal.


NN: Falando em honestidade e desse lado sentimental das pessoas, eu fui um dos muitos músicos que, em 2001, se juntou naquela imensa corrente de oração e esperança por você e sua saúde. Nós estávamos clamando para que tudo desse certo e hoje eu estou emocionado em realizar esta entrevista com meu grande mestre no contra baixo. Superada toda aquela dificuldade quais são os projetos para o futuro?

Pixinga: Depois da minha operação, realmente é um milagre que eu esteja hoje aqui, da maneira como entrei no hospital ninguém acreditava que eu iria sobreviver, para minha esposa disseram que estava muito mau mesmo. Mais existiu uma corrente muito legal de todas as tribos e religiões, todos me diziam que estavam rezando por mim e eu sempre fiquei muito agradecido. Todos os anos é preciso refazer os exames e há alguns dias estive com a minha médica e recebi “os parabéns”. Hoje estar aqui é um milagre, eles me salvaram, fui muito ajudado e agradeço sempre em oração por todos que me ajudam e torcem por mim. Houve uma fase em que fiquei oito meses sem tocar, foi bem complicada e difícil. A minha mulher, por orientação médica, segurava o baixo por cinco minutos enquanto eu dedilhava um pouco as cordas sem me mexer ou fazer qualquer esforço, foi muito difícil. Mas isso tudo é passado!


NN: Com certeza estamos falando com um exemplo de superação acima de tudo.

Pixinga: Fiz três cirurgias e a última foi a mais complicada, e eu quase morri por ter que ficar sem meu contrabaixo. Mas tinha minha família que me dava todo o apoio necessário, minha esposa Rita, meu filho e minha sogra que mora comigo desde que eu me casei, digo que ela é um ícone no universo do meu casamento (risos).


NN: O que você tem escutado ultimamente? O que você destaca no cenário musical atual?

Pixinga: Eu sou um pesquisador além de tocar baixo, tudo que sai de novo no mercado eu estou ouvindo. Quando digo que vou a Teodoro para minha esposa ela já sabe. Quando vou lá compro muito coisa. Estou sempre ligado e agora mais ainda com a internet. Existe um cara que me surpreendeu de novo: o Gary Willians. Estou sabendo por “más línguas” que ele deu uma parada em 2004 e lançou um disco em 2007 que é ótimo. Ele não conseguiu apenas velocidade, e sim velocidade, mais virtuosismo, mais musicalidade com uma afinação de fretless impressionante. Eu o respeito muito como músico. Mas aqui no Brasil existe muita gente de categoria. Na minha época era o Nico Assumpção, o Sizão e o Arismar. Hoje existe muita coisa legal acontecendo.


NN: Podemos ver muita gente boa no Festival Cover Baixo.

Pixinga: Sim, tem os meus sobrinhos, que são as pessoas que mais convivem comigo: Marcelo Narita, Miqueas Santana, Renatinho Santos, a minha equipe do EMT... Esses são os mais próximos do meu círculo de amizade, eu sou o tio para eles (risos), vivem tirando sarro de mim. Mas com certeza eles estão tocando muito! E ainda tem os sobrinhos mais velhos: Bráulio Araújo, de Recife, Ebinho Cardoso, de Cuiabá, Sergio Groove e Junior Primata, de Natal, Mauro Sérgio, de São Luís e fora uma legião de músicos bons, a cada dia descubro gente nova. Você (Ney Neto), que eu não conhecia e participou do Festival Cover Baixo SP com a gente e adorei. O Brasil é muito grande e ainda acho que vamos surpreender o universo do baixo.




NN: Se depender de você com certeza, com o Festival Cover Baixo em São Luís, Santos, Campinas, São Paulo....

Pixinga: Cuiabá, Brasília, Recife, Belém. O Cover Baixo deu certo graças a Nilton Wood e do apoio do pessoal da Cover Baixo, HMP, Marcio, Veruska, David Miranda nosso sensacional apresentador. Este é um trabalho que começou no EMT. Eu e o Nilton Wood começamos o projeto e hoje a média de público em São Paulo é de 90 a 100 pessoas, e fora daqui é de 400 para cima. Teve lugar que tocamos para 900 pessoas.


NN: E agora vem Caruaru?

Pixinga: Vem Caruaru, São José dos Campos, Fortaleza, Cuiabá, Natal, Brasília, Recife e fechamos o ano em Belém.


NN: Muito Obrigada pela entrevista Pixinga.

Pixinga: Neto, muito obrigado e valeu mesmo!!!! Muito estudo pra galera do Baixista.com.br !!!!


Essa entrevista foi concedida por Celso Pixinga no dia 18/04/2008,
Exclusiva ao site Baixista.com.br






 

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