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Giovanni Sena entrevista o mestre Jamil Joanes, um dos fundadores da Banda Black Rio.
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ENTREVISTA COM JAMIL JOANES
O Baixista que ajudou a fundar a Banda Black Rio, tocou com Gonzaguinha, Elba Ramalho, Gal Costa, Luiz Melodia, João Bosco, Ângela Maria, Fagner, Ricardo Silveira, Cama de Gato, Antônio Adolfo dentre outros não podia ficar de fora das nossas páginas. Giovanni Sena com muita honra conseguiu essa entrevista para nós. Confira abaixo.
A música tem sido generosa com você depois de tantos anos de contribuição a ela?
Jamil Joanes: Caro Giovanni, sem a menor dúvida que sim. Ela me retribui com a alegria, saúde, amigos que faço
por onde passo; me possibilitou adquirir minha própria casa, formar uma família, instruir e
educar meu filho em um bom colégio e numa boa faculdade; além de me possibilitar conhecer povos
e costumes diferentes pelo mundo afora. As dificuldades que encontramos na área musical são as
mesmas encontradas em outras profissões aqui no Brasil, quero dizer, conseqüências de uma
política errada e oportunista, que nos acompanha desde que esse País foi descoberto, impedindo
que o povo possa evoluir, ter acesso ao conhecimento, ter a oportunidade de viver uma vida com
dignidade.
Sabemos que fez parte da Banda Black Rio, que desempenhou um importante papel na soul music
brasileira. Poderia descrever como era o funk/soul music da década de 70?
JJ: James Brown, Stevie Wonder, Tower of Power, Chicago, Beatles, Earth Wind and Fire, o rock do Led
Zepelin, Chick Corea, George Duke, Temptations e muitos outros eram referencia para mim; eu não
escolhia o estilo, pois tudo isso era informação da boa, as quais eu misturava com O Fino da
Bossa da Elis, do Jair e do Zimbo Trio, Tom Jobim, além do baião do Gonzagão, a Jovem Guarda, o
Raul Seixas, Milton, Edu Lobo, Caetano, Gil e por aí vai. Eu não separava um gênero do outro e
aplicava intuitivamente o que assimilava de um estilo nos outros. Para ser sincero, eu nunca me
liguei na nomenclatura dada aos ritmos naquela época ou até mesmo hoje em dia. Eu escutava muito
e de tudo. Nunca fui muito de “colar” ou tirar igualzinho o que os caras tocavam a não ser
frases específicas que caracterizavam as música; sempre procurei fazer do meu jeito.
Jamil é possível fazer um levantamento das gravações/discos que já participou?
JJ:
Eu não tenho a menor idéia, sinceramente. Quando comecei a participar de gravações eu fazia
questão de ter esses trabalhos como documentos, e como não os recebia das gravadoras, eu os
comprava como qualquer pessoa nas lojas; sempre achei que cada músico deveria receber um
exemplar da gravadora ou do produtor, como parte do cachê, ao invés de ter que ir a uma loja
comprar. Alguns artistas relevam essa parte, reconhecem a dedicação dos músicos, mas
infelizmente não se pode dizer o mesmo de alguns produtores.
Quanto a esse levantamento sobre os trabalhos que participei, sempre penso à respeito mas no
final fica por isso mesmo, só na vontade (risos)
Na ficha técnica do álbum “The Brasil Project” de Toots Thielemans você gravou os baixos
das músicas Obi (Djavan), Preciso Aprender a Só Ser (Gilberto Gil), Casa Forte (Edu Lobo). Como
foi o clima das gravações deste incrível disco?
JJ: Sensacional! O contato direto com esse mágico da harmônica foi muito prazeroso. Me lembro que,
em um desses bons momentos no estúdio, Djavan apresentava Obi ao violão, enquanto os músicos ao
redor observavam. Toots ficou quietinho em um canto ouvindo e aprendendo a música sem fazer
qualquer anotação de melodia ou harmonia, às vezes tirava a gaita do bolso, soprava uma nota e a
guardava novamente, procedendo do mesmo jeito à medida que ia conhecendo a melodia. Oscar Castro
Neves, o produtor e arranjador do projeto, cuidava das partituras para a ‘base’, enquanto Toots
já tinha dominado tanto a melodia quanto a harmonia.
O clima no estúdio foi maravilhoso mesclando tranqüilidade e profissionalismo, com um Toots
atencioso e sem qualquer “estrelismo”.
Meses mais tarde, tive a oportunidade de participar de shows com esse gênio no Rio de Janeiro,
São Paulo, Los Angeles e Nova York para o lançamento do cd.
Como anda o mercado de trabalho para os baixistas brasileiros?
JJ: O mercado de gravações mudou muito, pra pior, diga-se de passagem. Acredito que a pirataria seja
a principal responsável por essa mudança, já que não existe uma repreensão adequada a esse
comércio como existe em outros países. Talvez esse problema fosse evitado se os preços cobrados
pelas gravadoras, pelos “cds”, não fossem tão altos. Não é qualquer pessoa que pode comprar
“cd’s” ou “dvd´s”, nas condições atuais. As grandes gravadoras estão fechando as portas uma a
uma e os valores pagos por gravação foram modificados para baixo. Hoje temos que fazer 2 para
compensar 1 de antigamente. Mas os shows existem e tem sempre onde tocar apesar da crise no
mercado.
Sendo filho de um grande fã de Nelson Gonçalves, não poderia deixar de perguntar, como foi
trabalhar com o citado tenor?
JJ:
Era muito fácil trabalhar com cantores como Angela Maria, Cauby Peixoto e Nelson Gonçalves. Esse
último tinha uma voz forte e uma interpretação de impressionar. Cheguei a gravar alguns discos
com ele e me recordo que gravávamos as bases sem a presença dele, que ao chegar, se dirigia ao
estúdio dizendo, “Vamos andar logo com isso” e saía gravando de primeira com a maior facilidade.
Participei de alguns shows com ele pelo país, sempre com uma grande orquestra.
Lembro-me também de um fato que me deixou um pouco assustado; antes de um show em uma boate no
Rio, aguardávamos sua chegada para iniciar o show, quando ele chegou só, dirigindo seu Galaxy
branco. Alguém perguntou se ele não temia vir sozinho de Niteroi onde morava, dirigindo um carro
que chamava tanta atenção.
Foi quando ele levou a mão às costas, e por detrás do paletó puxou um 38 que passou a balançar
na nossa frente dizendo. “Quero ver quem vai encarar!!!”. Os tempos eram outros.
Você mantém um programa de estudo diário do contrabaixo?
JJ:
Quando eu era mais novo eu estudava quase que diariamente, não largava o instrumento. Hoje em
dia não me dedico tanto quanto antes, mas o meu contato com a música é diário. Tenho estudado
pelo menos duas vezes por semana quando não tenho que viajar. Mas o importante é não se
distanciar demais do instrumento; é como o jogador de futebol, se ficar sem treinar, perde
totalmente a condição de jogo.
Como foi trabalhar no Som Imaginário junto com Wagner Tiso, Paulinho Braga, Toninho Horta,
Nivaldo Ornelas e Fredera?
JJ:
Podeira descrever o som que vocês faziam?
Foi uma experiência sensacional tocar com essas feras, pois a mesma música sempre era executada
de maneira diferente mesmo tendo o mesmo roteiro. Paulinho Braga com o seu conhecimento
jazzístico flutuava, brincava com o tempo, e eu tinha que ficar ligado harmonicamente e
ritmicamente pra não me perder; aprendi muito. Wagner Tiso foi um grande incentivador, me
indicando para alguns trabalhos em estúdio, sinal de confiança no que eu poderia produzir;
Nivaldo Ornelas também me deu muita força me convidando para participar de vários trabalhos seus
individuais. Quanto ao Toninho Horta e o Fredera, não havia como embolar, não se atropelavam
graças aos estilos diferentes de execução.
Lembro-me bem de um dos shows que fizemos em um pátio de uma escola em São Paulo; o show começou
por volta das 17:00 h de um domingo, e lá pelo meio do espetáculo durante um solo de bateria,
Paulinho saiu do instrumento tocando um sino, o que todos no palco fariam assim que ele
começasse a tocá-lo. Pura coincidência, nós todos estávamos tocando os sinos andando pelo palco,
quando os sinos das igrejas na vizinhança começaram a tocar também; eram seis da tarde. Foi um
momento inesquecível para nós, era a cara do Som Imaginário.
Com quem está trabalhando hoje em dia?
JJ:
Hoje em dia trabalho com a espetacular Leny Andrade, que é acompanhada por um quinteto fabuloso
o qual tenho a honra de fazer parte.
Vez por outra também faço shows com a Miúcha, com quem participei de um trabalho recentemente em
Atenas. Graças à Deus sempre tem algum trabalho instrumental para fazer, onde eu posso me
soltar um pouco mais, sendo essa uma boa maneira de estudar.
Jamil com sua experiência, como proceder com as dificuldades que se apresentam no caminho
de um músico?
JJ: As coisas hoje estão mais fáceis porque a internet facilita muito, caso você queira se informar
sobre métodos ou trabalhos de algum músico ou artista. Antigamente para se conseguir um bom
instrumento, além de caro não tínhamos muita opção de onde comprar. O aprendizado hoje é
facilitado, por haver vários professores particulares e escolas de música em todos os grandes
centros. As dificuldades são superadas com a dedicação aos estudos do instrumento e da teoria,
procurando estar sempre informado sobre as novidades musicais e ouvir de tudo o que puder.
Procurar assimilar a idéia do artista e do arranjador e ser cúmplice na execução com os outros
músicos é fundamental, para que o trabalho produza o resultado desejado com mais rapidez.
Poderia descrever o seu “set up”?
JJ:
Eu uso um Music Man que é meu predileto; é um grande instrumento e tem uma sonoridade que se
adapta a qualquer gênero musical. Tenho também 2 fretless (Pedulla de 4 cordas e um Warwick de
cinco) que raramente uso; um Jazz Bass, um Spector de cinco, um baixolão de cinco cordas da
Gibson, um baixo de seis cordas e um baixo vertical, sendo esses dois últimos ótimos
instrumentos construidos por um amigo “luthier” chamado Eliezer.
Tenho um amplificador Hartke para pequenos eventos e não costumo usar pedais para efeitos.
Antigamente eu usava chorus ou delay, mas hoje em dia não vejo necessidade.
Jamil Joanes e seu Music Man Sting Ray 5
Pra finalizar Jamil, deixe uma mensagem para os visitantes do site baixista.com.br.
JJ: Estamos em fase de finalização de um cd de músicas inéditas da Banda Vitória Régia e em breve
(ufa...) estaremos lançando no mercado.
Espero que pra todos nós, de todas as profissões, as coisas venham a melhorar nesse nosso
querido Brasil, com o petróleo descoberto em nosso litoral, e com as grandes possibilidades de
trabalho a serem criadas daqui a alguns anos na área do entretenimento, com os eventos ligados a
Copa do Mundo e às Olimpiadas dois anos depois.
Torço para que nossa política mude de rumo, para que ela possa nos proporcionar uma melhor
escolaridade e consequentemente uma melhora na saúde brasileira que anda muito mal. Depende de
nós essa melhora, principalmente na escolha de políticos, para que nossos filhos e netos possam
ter uma vida digna e assim possam se orgulhar do País em que vivem.
Abração à todos.
Jamil Joanes - De Ombro - Vídeo
Joao Bosco, Jamil Joanes e Victor Biglione
Giovanni Sena -
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Baixista profissional e colaborador
www.baixista.com.br
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+ Sobre Giovanni Senna
Baixista desde: 1991
Primeiro Baixo: Não tinha marca
Baixos Atuais: Warwick LX Streamer 5 cordas, Music Man Stingray 4 cordas, Jazz Bass Squier by Fender.
Formação musical:Formado em licenciatura em Música pela Universidade de Brasília. Formado em baixo elétrico pela Escola de Música de Brasília.
Favoritos: Arthur Maia, Luizão Maia, Sizão Machado, Jamil Joanes, Thiago do
Espírito Santo, Steve Wonder, Miquéias dos Santos, Nélio Costa, Aroldo
Araújo, Sergio Groove, Primata, Oswaldo Amorim, Ximba Uchiama, etc
Bandas: Trio MP4, Dr. Scotch, Miss Voiss
Localização: Brasília/DF
Myspace: www.myspace.com/giovannisenabass |
Importante: O Baixista.com.br é um veículo livre. O conteúdo dessa coluna não reflete obrigatoriamente a opinião do site como um todo. Sendo de total responsabilidade dos respectivos colunistas as opiniões, informações e dicas aqui publicadas.
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Comments
Parabens pela matéria.
Parabens Giovanni e seja bem vindo a nossa familia
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