 |
Profile do baixista Jack Bruce do Cream. Imperdível |
PROFILE: JACK BRUCE
Jack Bruce nasceu em 14 de maio de 1943 em Glasgow. Com timbres inconfundíveis no baixo, como um “apito de navio”, Jack Bruce arrastou gente como Geddy Lee, Chris Squire, Sting e Jaco Pastorius para o instrumento. Sem contar que o lamento de sua voz maravilhou e influenciou artistas como Robert Cray e, como compositor, criou obras-prima do rock: quem nunca ouviu o riff de “Sunshine Of Your Love” do Cream?
Como baixista, Bruce foi responsável direto da popularização do estilo livre de tocar baixo, principalmente nos shows do Cream, onde ele, Eric Clapton e Ginger Baker exacerbavam em vistuosismo e fizeram muitos jazzistas “engolirem rock’n roll” e seus improvistos. Apesar disto, não devemos esquecer de que Bruce sempre criou linhas marcantes e melodiosas e seu início de carreira não começou calcado no rock.
Sua formação musical foi bastante cigana, pois possuía pais músicos que excursionavam exaustivamente pelos EUA e Canadá e, após 14 diferentes escolas, se formou na Bellahouston Academy and the Royal Scottish Academy of Music com 17 anos de idade. Seus estudos em violoncelo, piano e composição influenciariam muito seu estilo único de tocar: repare nas primeiras notas do baixo em “Tales Of Brave Ulisses” do Cream. Incidental a semelhança com um violoncelo? Acredito que não! É incrível como baixistas que se envolvem com outros instrumentos procuram tocar o baixo de maneira mais singela e solta possível, sem as monótonas tônicas e quintas. Ele mesmo exalta isto: “Existia toda esta coisa de tocar o baixo, que é separada de qualquer outra coisa – um aspecto específico. Não era para ser somente como um papel de apoio. Tocar baixo era uma arte separada da música.” Mas esta é outra discussão.
Após se formar, Bruce viajou pela Itália e Inglaterra tocando baixo acústico em bandas de baile e de jazz. Em 1962 ele é convidado para ingressar em sua primeira grande banda: Alex Korner’s Blues Incorporated. Como muita gente sabe, a Alex Korner’s Blues Inc. foi responsável por iniciar o movimento de blues branco pela Inglaterra (precursor da Britsh Invasion) e revelar gente do calibre de Charlie Watts (Rolling Stones), o saxofonista Dick Heckstall-Smith (Colosseum, Graham Bond Organization e John Mayall’s Bluesbreakers), Ginger Baker, Ian Wallace (King Crimson), Cyril Davies (lendário gaitista britânico) e Long John Baldry (exímio vocalista que descobriu Rod Stewart dormindo no metrô londrinho e influenciou um pianista de nome esquisito, Reg Dwight, a roubar o John de Long John Baldry para seu segundo nome: Elton John!). Vale lembrar que após o fim do Blues Incorporated, Alex Korner continuou na ativa e lançou gente como Keith Richards, Mick Jagger, Brian Jones, Rod Stewart, John Mayall, Robert Plant e Jimmy Page.
Em 1963 Bruce entra para Graham Bond Organization, com Graham Bond (um dos pioneiros no uso do Hammond), Dick Heckstall-Smith e Ginger Baker, egressos da banda de Alex Korner. John McLaughlin entraria na banda posteriormente. Gravaram 2 excelentes discos, mas Baker e Bruce tinham hostilidades muito grandes (até saíram “na mão” em cima do palco!). Isto cresceu tanto que Bruce foi obrigado a deixar a banda em agosto de 1965, ano em que teve uma passagem breve pelo John Mayall & The Bluesbreakers, mas foi o suficiente para conhecer um garoto na guitarra chamado Eric Clapton. Em 66 teve uma passagem breve pela banda de Manfred Mann. Nesta época ele recusou uma oferta de Marvin Gaye para ingressar sua banda, devido seu primeiro casamento radicado fora dos EUA.
Em Julho de 1966, Eric Clapton e Ginger Baker tramavam montar uma nova banda. Mas faltava um baixista e um vocalista. Clapton então colocou a Baker a seguinte condição: só formaria uma nova banda se o cargo fosse ocupado por Jack Bruce. Clapton não sabia que Jack Bruce se tratava de um velho desafeto de Ginger Baker.
O que resultou desta união foi nada menos do que o Cream, o resto é história: 35 milhões de discos vendidos em 2 anos de existência da banda; baixistas, guitarristas e bateristas influenciados pelo mundo todo; “Sunshine Of Love”; shows antológicos, nunca antes vistos com tanto vigor, vistuosismo e técnica; popularização da formação em power trio, etc., etc.
Em 1968 a banda implode devido à guerra de egos (reza a lenda que Jack Bruce e Eric Clapton pagavam seus roadies para aumentarem o volume de seus amplificadores durante o show!), mas sua influência é sentida até hoje. Dispensa maiores comentários!
Eric Clapton e Ginger Baker então seguiram com Steve Winwood e Rick Grench para formar o Blind Faith, enquanto Bruce grava seu primeiro disco solo: o clássico Songs For a Tailor. Em Songs For a Tailor, além do baixo e vocais, Bruce segura muito bem a onda no piano, órgão, violoncelo e guitarra. Este disco traz elementos de rock, jazz, psicodelia e algo de clássico. A tour promocional do disco contou com gente do calibre de Larry Coryell e o lendário baterista da Jimi Hendrix Experience, Mitche Mitchell.
CREAM: Bruce a esqueda tocando uma Fender VI escala curta
Pela década de 70, ele tocou fusion com John McLaughlin, Jon Hiseman e Dick Heckstall-Smith no disco Things We Like (1970), voltou ao hard rock em 3 discos com West Bruce And Lang (1972), formou uma parceria com Mick Taylor (1975). Nos anos 80, 90 e 2000 tocou com gente do calibre de Cozy Powell, Gary Moore, Jon Anderson, Billy Cobham, Clem Clempson, Robin Trower, Bernie Worrel, Verson Reid, Ringo Starr, Gary Moore, Peter Frampton, em projetos de rock, fusion, pop, blues e até música latina.
Em 2003, um câncer de fígado quase o matou, mas após um transplante bem sucedido, pode brindar os fãs ávidos com uma reunião do Cream, comemorando os 60 anos de Eric Clapton em 2005. É bom lembrar de Jack Bruce nunca interrompeu sua carreira desde seu início, seja lançando discos solo ou participando de diversos projetos.
Mas e seus equipamentos e técnica?
Como já dissemos, Bruce começou no violoncelo e no baixo acústico, o que proveu a ele uma mão esquerda muito forte e precisa. Após contato com o lendário guitarrista jamaicano Ernest Ranglin, em torno de 1965, Bruce foi influenciado a migrar para o baixo elétrico.
Seu primeiro baixo elétrico foi um Fender VI de escala curta, 6 cordas, com a mesma afinação de guitarra (EADGBE), porém uma oitava abaixo. Este baixo foi responsável pela maior parte da gravação do debut Fresh Cream (1966), que logo foi deixado de lado pelo lendário Gibson EB-3, instrumento de 4 cordas que era plugado diretamente em um cabeçote Marshall de 100 watts em 4 falantes de 12. Ele abria totalmente o volume do cabeçote para obter seu famoso timbre saturado (ele instalaria posteriormente um diodo em seu Gibson EB-3 para obter o mesmo efeito sem abusar o amplificador).
Em 1976, Bruce migrou novamente de instrumento, desta vez para o baixo fretless, flertando inicialmente com baixos Aria e Spector, de escala longa, até fixar-se com a alemã Warwick. Bruce sugeriu algumas customizações no baixo e, desde então, é seu instrumento oficial. A Warwick até possui 2 modelos de instrumentos sob sua assinatura: Jack Bruce Signature, utilizado pelo próprio Bruce, e Jack Bruce CRB, com visual baseado no clássico Gibson EB-3, utilizado na reunião do Cream de 2005. Ele também usa baixos Warwick de 5 cordas para gravações e, quando eventualmente toca com baixos com traste, utiliza Gibsons EB-1.
Sua amplificação atual é um cabeçote Hartke 7000, ligada em 4 gabinetes: dois com 4 falantes de 10 e dois com 1 falante de 15.
Sobre a técnica de sua mão direita, o próprio Jack Bruce entrega sua influência: ele executa o pizzicato com um único dedo, no melhor estilo hook de James Jamerson (estilo não muito recomendado pela maioria dos professores).
Músicos geniais sempre possuem uma assinatura, aquele som que você escuta e sabe quem está tocando, mesmo ouvindo uma música pela primeira vez. Com Jack Bruce não é diferente. Seu estilo e sua aparição no mainstream influenciou e ainda influencia muita gente, seja com sua voz ou com suas composições, mas principalmente como um baixista diferenciado e ousado para sua época.
Abaixo, seguem algumas músicas em que Jack Bruce gravou excelentes linhas para o baixo:
Artista / Música
Frank Zappa – Apostrophe
Cream – White Room (cheque versões ao vivo, como no Farewell Concert de 1968)
Cream – Dance The Night Away
Jack Bruce – Things We Like (não dá para destacar uma música, este disco é para ser ouvido inteiro!)
Jack Bruce – Theme From Imaginary Western (mas este som não é fritação? Sim, não é! Mas nesta faixa Jack Bruce nos mostra como uma linha de baixo conduzida com bom gosto realça toda a melodia e deixa o som mais vivo, com belos nuances)
West Bruce & Laing – Powerhouse Sod
Joao Paulo -
Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo
Colaboração
www.baixista.com.br
Importante: O Baixista.com.br é umveículo livre. O conteúdo dessa coluna não reflete obrigatoriamente aopinião do site como um todo. Sendo de total responsabilidade dosrespectivos colunistas as opiniões, informações e dicas aqui publicadas.
|